Tabu da insegurança financeira aprofunda sofrimento emocional

Problemas com dinheiro afetam sono, humor e autoestima, mas o tema ainda é tratado como um segredo difícil de admitir.

Em meio a boletos, incertezas e expectativas, o dinheiro tem pesado não apenas no bolso, mas também na mente: a grande maioria dos brasileiros já perdeu o sono, a calma e até a autoestima por causa das finanças. Em silêncio, muitos carregam sozinhos esse fardo, um tabu que nasce do medo de julgamento e que aprofunda ainda mais o sofrimento emocional.

De acordo com o Panorama da Saúde Mental 2025, pesquisa divulgada pelo Instituto Cactus em parceria com a AtlasIntel, com participação de mais de dez mil pessoas, 83% dos participantes relataram ter se preocupado com a situação financeira pelo menos uma vez durante duas semanas. O percentual elevado evidencia o impacto direto da insegurança econômica na saúde mental das pessoas.

Ao colocar na balança a preocupação financeira e os impactos mentais causados pela insegurança, surge um grande tabu: a dificuldade é escondida a sete chaves por medo de julgamento ou vergonha.

“Há uma associação cultural contínua entre dinheiro e competência pessoal; falar sobre problemas financeiros muitas vezes soa como aceitação de fracasso, mesmo em um contexto onde muitas pessoas reconhecem que isso não deveria ser assim”, aponta Leonardo Siqueira Dos Santos, consultor financeiro da Firece.

Soma-se a esse cenário, a rara educação financeira dentro de famílias e escolas, que reforça a ideia de que dinheiro é um assunto privado. “Culturalmente, medimos nosso valor pessoal pelo dinheiro na conta, e isso mantém um desafio para muitos.”

Os impactos desse tipo de preocupação refletem no cotidiano. Segundo pesquisa feita pelo Serasa, 70% das pessoas perdem o sono devido a problemas financeiros, 48% sentem diferenças no humor e na estabilidade emocional, 44% enfrentam consequências na autoestima, 32% sentem menos energia e disposição e 30% perdem a capacidade de concentração no trabalho.

“No meu dia a dia, vejo isso como uma ‘paralisia decisória’: clientes que não conseguem focar no trabalho ou na família porque a preocupação com dívidas drena toda a energia mental deles”, exemplifica Leonardo. Assim, o sofrimento psicológico, além de impactar o cotidiano, também dificulta mais ainda as decisões financeiras e pode piorar o cenário dos indivíduos.

Como lidar emocionalmente

Para atravessar essa fase difícil, segundo Leonardo, o primeiro passo é separar o problema financeiro do valor humano de cada um. “A pessoa está com um problema financeiro e não necessariamente ela é o problema; isso já alivia um grande fardo na rotina diária”, diz.

Outras estratégias importantes são:

  • Reconhecer e validar suas emoções: aceite que as preocupações financeiras afetam a saúde mental, porém não seja tão crítico e duro consigo mesmo, já que isso pode atrapalhar mais do que ajudar;
  • Crie um diagnóstico realista do seu problema: liste suas dívidas, receitas, despesas e todos os outros problemas. “Aqui o trabalho de consultoria entra perfeitamente, já que nesses momentos a última coisa que as pessoas querem é lidar com o problema. Sendo assim, o profissional ajuda tanto na identificação como na solução do mesmo”;
  • Divida o problema em pequenos passos: em vez de olhar para a montanha enorme da dívida, dê atenção a qual será o próximo passo. Ao resolver uma pequena pendência e ver resultado, a sensação de controle retorna e a solução dos problemas fica mais fácil.

Compartilhar preocupações financeiras para reduzir o isolamento emocional também é uma opção, desde que a outra pessoa seja confiável. “Quando se encontram as pessoas certas, o alívio muitas vezes é instantâneo. Falar tira o peso do segredo e transforma em algo que pode ser tratado e resolvido com apoio mútuo”, indica o especialista.

Para identificar ambientes seguros é preciso saber que esses são marcados pela ausência de julgamento moral – muitas vezes o maior medo de pessoas que enfrentam problemas financeiros. Algumas características podem mostrar que seus problemas serão acolhidos com carinho: pessoas que em outras situações já demonstraram confidencialidade, empatia, experiência compartilhada, escuta ativa, foco na solução.

Além disso, também é importante procurar ajuda de profissionais da saúde mental, que podem oferecer perspectivas diferentes para os problemas emocionais causados pelas finanças.

Fonte: vidasimples.co

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